A raposa feia

Ficwriter: Jude Melody
Pokémon - angst
12 anos - completa


Eu era o filhote desprezado da ninhada. Com apenas alguns dias de vida, conheci a aversão materna. Enquanto meus irmãos e irmãs recebiam carinho e mamavam tranquilos e aquecidos, eu era afastado pelas patas traseiras de minha própria mãe. Não me lembro de como cresci. Só sei que era pequeno e magro, o saco de pancadas daquelas raposinhas amadas e saudáveis. Eu era execrado. Desconhecia a compaixão e o calor.

Quando completei dois meses, a consciência veio-me na forma de um reflexo. Vi a mim mesmo no espelho d’água e reconheci um brilho prateado em meus pelos maltratados. Todos os meus irmãos e irmãs eram marrons. Eles eram lindos. Por que eu não podia ser lindo como eles também? Não me deixavam participar das brincadeiras. Afastavam-se quando eu deitava perto deles. Minha mãe só olhava. Distante. Semota.

Ela se recusava a cuidar de mim. Dizia que eu era amaldiçoado, que traria a desgraça da família. Meus pelos prateados eram como uma fonte eterna de luz. Eu não conseguia me esconder dos predadores. Meus irmãos e irmãs desapareciam entre as árvores e os arbustos, mas eu era como uma lua cheia em um céu sem nuvens. Uma vez eles disseram que eu tinha sorte de a mãe não me matar. Ela apenas ficava olhando para mim, e eu percebia o ódio desvelado em seus olhos âmbares.

Eu tentei de tudo. Fazia elogios. Trazia frutas raras. Induzia meu corpo à exaustão com os treinamentos rigorosos a que decidira me submeter para me tornar cada vez mais forte. Até cheguei a rolar na lama para tornar meus pelos marrons como os de um Eevee comum. Eu só queria ser normal. Eu só queria ter amor. Mas aquele tom de prata era como uma sentença de morte. Eu era a desgraça em forma de raposa. Eu era uma abominação. Ninguém queria cuidar de mim.

Até que, um dia, eles simplesmente me abandonaram.

O sofrimento pelo qual passei foi épico. Era difícil encontrar água e comida. Era difícil encontrar lugares seguros em que pudesse dormir em paz. Era difícil viver. Acho que me acostumei a correr. Ora fugindo de predadores. Ora fugindo de meus próprios medos. Eu me escondia. Observava a felicidade dos outros de longe. E me perguntava se aquilo me pertencia, ou se eu era apenas uma aberração que merecia morrer.

Eu estava desistindo quando ele me encontrou. Ajoelhou-se diante de mim enquanto eu dormia e afastou as folhas que eu usara para me cobrir. Despertei de meu sono inquieto, assustado com o súbito movimento. Estremecia de medo, mas tentei rosnar feroz. Meu pelo estava eriçado. Eu provavelmente parecia um filhote demoníaco. Queria que aquele intruso, aquele humano, fosse embora. Queria que ele fosse embora e me deixasse sozinho.

Então, ele estendeu o braço.

No gramado a minha frente, eu vi uma fruta estranha. Tinha um cheiro diferente de tudo que eu já sentira. Meu estômago roncou. Há quanto tempo eu não comia? Estava com medo, mas também estava com fome. Arrisquei alguns passos. Cheirei de novo. Uma leve mordida, apenas para sentir o gosto. Era delicioso! Devorei aquele alimento estranho, lambendo o focinho. Ouvi o som de uma risada, e o humano estendeu o braço outra vez. Ele me entregou uma nova fruta estranha, tão macia quanto a primeira. Eu a comi sem hesitar.

Estava mastigando os últimos pedaços quando senti um toque sobre minha cabeça. Por um instante, achei que estivesse sendo agredido, mas não sentia qualquer maldade ou violência naquele gesto. Na verdade, a sensação era boa. Eu fechei os olhos, deliciando-me com aqueles dedos que massageavam meus pelos sujos e maltratados. Eu tinha sete meses quando conheci o carinho pela primeira vez.

O humano era bom. Levou-me com ele para lugares novos. Acolheu-me como um filho que retorna a casa após uma terrível desventura. Ele me alimentava e me dava banho. Escovava meus pelos e brincava comigo. Quando eu ficava cansado, ele me pegava no colo. Às vezes deixava eu me sentar em seus ombros. Eu gostava. Era divertido ver o mundo dali de cima. Havia momentos em que eu me sentia tão feliz que lambia seu rosto. Eu ouvia um som gostoso, que ele chamava de risada. E eu me sentia tão pleno que ria também.

Durante a noite, ele me deixava dormir a seu lado. Era tão quentinho. Eu adorava ficar aconchegado contra o seu peito, sentindo sua respiração lenta. Quando amanhecia, eu o acordava com um saudoso uivo. Ele piscava, sonolento, e fazia carinho nas minhas orelhas, sorrindo como se eu fosse a melhor visão do mundo. Ao seu lado, eu jamais precisava ter medo. Ele me protegia. Quando brigava comigo, eu ficava triste. Mas ele logo esquecia a raiva, e nós dois éramos melhores amigos de novo.

E eu me sentia grato.

Pela primeira vez na vida, não me sentia execrado. Minha mente traumatizada não compreendia. Como aquele humano poderia amar uma aberração como eu? Como ele poderia amar a mim? Depois de tantos maus tratos, de toda a rejeição, eu acreditava que não havia lugar no mundo para mim. Até que o encontrei. Ou melhor, ele me encontrou. Em meio a tanta desgraça e ódio, ele viu em meus olhos o que eu sempre quis. E me deu muito mais do que eu poderia desejar.

E é por isso que estou aqui hoje. Com todas as minhas fitas e laços azuis. Admirando seu rosto sereno e seu sorriso cheio de afeição. Nenhum de nós sabe como tudo deu tão errado. Era só mais uma caverna que decidimos explorar durante nossas aventuras. Mas houve um deslizamento, e agora não há saída. Estamos sós. Ninguém virá nos salvar. Você estende o braço uma última vez, afagando minhas orelhas. Ouço-o dizer aquela palavra. Diz que sou especial. A palavra que embalou meus sonhos nesses últimos anos.

Minhas lágrimas acompanham as suas. Estou triste, mas também estou feliz. Não consigo imaginar uma forma melhor de morrer. Vejo o brilho da lâmina que você retira de sua mochila. Não sinto medo. Confio totalmente em você. Eu só queria que pudesse ser ao contrário. Queria que fosse eu o último a morrer. Queria presenciar seu último suspiro e dormir pela eternidade aconchegado em seus braços.

A lâmina se aproxima de mim, e eu vejo meu reflexo. De súbito, lembro-me daqueles dias em que fui um filhote desprezado. Lembro-me de como minha mãe me deserdou e de como eu quase morri faminto e sozinho da floresta. Eu estava quase desistindo quando você me encontrou e me retirou do abismo em que eu caíra.

Agora é minha vez de retribuir o favor.

Insuflado de coragem, disparo pela caverna. Ouço você gritar meu nome e correr atrás de mim. Nós paramos diante de uma enorme parede de pedra. Eu olho para você e percebo a confiança em seus olhos cinzentos. Com uma sensação aquecida em meu peito, deixo que esse amor de anos brilhe em um belíssimo tom prateado. Meu ataque mais forte. Vejo a parede desfazer-se, como neve em uma noite de inverno. A lua joga sua luz sobre nós. E estamos livres.

O primeiro passo é uma queda vertiginosa. Em poucos segundos, sentimos o impacto da água. Está frio, frio demais. Como naqueles dias em que eu era obrigado a dormir afastado de meus irmãos e de minha mãe. Mas ainda não acabou. Eu preciso tirá-lo deste lago. Uso minhas forças finais para arrastá-lo até a margem. Você está inconsciente, mas ainda respira. Exausto, aconchego-me contra o seu peito e me permito mergulhar em um breve sono.

Desperto com o som de sua voz. Com olhos cansados, busco por seu rosto em meio à escuridão. Encontro seus olhos e sorrio como se eles fossem a melhor visão do mundo. Não importa mais se eu sou uma aberração. Se eu sou demoníaco, ou apenas diferente. Porque agora eu tenho alguém que me ama como eu sou. Porque esse amor tão sincero permitiu que eu me amasse também. Porque eu agora conheço o carinho e o calor. Você me pega no colo, sussurrando em meus ouvidos aquela palavra. Diz que sou especial.

E eu me sinto grato.

 

 

















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