Ao modo trouxa

Ficwriter: Jude Melody
Harry Potter - romance - original
livre - spoiler - completa


Na infância, ela encontrou uma fotografia de um menino bonito jogada sobre o gramado do parque. Fez movimentos com os pés para espantar os esquilos e pegou aquela preciosidade com suas mãos pequeninas. Um sorriso surgiu em seu rosto. O achado foi parar no bolso do vestido, e de bolso foi parar em sua caixinha de tesouros.

Passaram-se dois anos. Ela recebeu uma carta misteriosa, e seus pais levaram as mãos ao rosto. Sua filha era uma bruxinha e havia sido convidada a integrar o corpo docente de Hogwarts. Hogwarts! Não que eles soubessem o que era Hogwarts, mas estavam orgulhosos mesmo assim. Beijaram a testa da menina e se dirigiram ao carro para comprar o material escolar. Onde, raios, conseguiriam pergaminhos?

No internato, ela conheceu um menino com cabelos negros desgrenhados e uma cicatriz na testa, além de um ruivinho chato. Foram os seus primeiros amigos. No quinto ano, ela já os amava de uma forma que não sabia explicar. No sétimo, descobriu no ruivinho — que já não era tão “inho” assim — um pouco mais do que a amizade.

Casaram-se. Tiveram dois lindos filhos. Foram morar em uma casinha simpática no campo, a poucos quilômetros da Toca, porque a vovó gostava de ver os netos, e o vovô gostava de conversar com a nora. Certa tarde, enquanto realizavam a limpeza de final de ano — ao modo trouxa, pois assim exigia a esposa —, o ruivo deparou-se com uma caixinha cor-de-rosa. Achou que fosse de sua menininha, mas ela negou. A mãe surgiu logo em seguida, a surpresa estampada no rosto. Pegou o objeto em suas mãos já não pequeninas e sorriu. Era sua caixinha de tesouros!

A limpeza foi interrompida para que ela se recordasse de todas aquelas lembranças que pareciam esquecidas bem lá no fundo da Penseira. Quando seus olhos encontraram a fotografia do menino bonito, seu coração pareceu parar. O marido tocou seu ombro, franzindo o cenho para aquela criança ruiva que os observava com ar travesso. Questionou quem era.

Um suspiro profundo escapou da mãe. Ela sussurrou três palavras que, apesar de simples, eram mais mágicas do que Alohomora e Wingardium Leviosa. Meu primeiro amor. O ruivo fez aquela cara de quem está escondendo alguma coisa, mas não quis dizer o que era. Teve início uma breve discussão, com direito a várias perguntas curiosas das crianças e a um bufar irritado do gato velho.

Diante de tanta insistência, o pai acabou cedendo. Disse que, quando tinha nove anos, havia perdido uma fotografia em um parque de trouxas. Aquela fotografia. A mãe espantou-se. Afinal, o marido era bruxo. Que fazia ele em um parque trouxa quando era criança? Primeiro veio um sorriso. Depois a explicação.

O vovô sempre fora fascinado pelos trouxas. Certa vez, arrastara o filho mais novo a um bairro trouxa comum para ver mais de perto a vida sem magia. Enquanto caminhavam por um parque, um homenzinho careca acenou para eles e se ofereceu para tirar uma fotografia do menino. A criança aceitou na hora, entusiasmada com a ideia. Quando pegou o quadradinho que o fotógrafo lhe estendia, que decepção! Seu pequeno eu não se movia. Ficava parado no mesmo lugar, sempre com a mesma expressão.

Irritado, jogou o objeto o mais longe que podia e exigiu que seu pai o levasse embora. Eles partiram a passos rápidos, deixando para trás um homenzinho careca que, muito confuso, analisava as moedas estranhas que havia recebido como pagamento.

Ao ouvirem o desfecho da história, os filhos riram. O pai deu de ombros, sentindo suas orelhas ficarem vermelhas como a flâmula da Grifinória. A mãe ainda o observava com uma expressão de surpresa em seus olhos. Ela lhe deu um beijo tão apaixonado quanto aquele primeiro, na Sala Precisa. De repente, eram jovens de novo. Entrelaçaram seus dedos e chamaram os filhos para uma nova rodada de limpeza — ao modo trouxa, é claro. Que outras surpresas não encontrariam se continuassem executando a tarefa sem magia?

Sem magia? Oh, não. Havia, sim, magia no que eles faziam. Uma magia invisível, do tipo que não se pode ver, nem tocar. Uma magia que não faz as imagens das fotografias se moverem, não abre portas trancadas, nem fez objetos levitarem. Essa magia é o amor.

 

 

















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